Primeiramente preciso mencionar que o post a seguir trará um relato pessoal em primeiro plano, para ampliar a discussão sobre a linha Interbairros I e outros detalhes do transporte coletivo de Curitiba.

Há 2 anos vendi meu carro por diversas razões. Uma delas era o fato de estar morando em uma região central, com facilidade de acesso ao comércio em geral e transporte. Coincidência ou não, a linha Interbairros I foi a que mais utilizei pelo fato de boa parte dos meus compromissos estarem próximos ao itinerário da linha. Por este motivo, tenho um certo carinho e orgulho em poder usufruir de uma linha tão benéfica e certeira para mim. Através dela consegui observar alguns detalhes interessantes acerca da possibilidade de oferecer mais conforto e mobilidade aos curitibanos – mas deixarei para comentar especificamente sobre isso em um outro post.

O que preciso explicitar neste post é sobre uma lamentável experiência que tive com a linha neste domingo, 17. Dificilmente utilizo ônibus aos finais de semana, neste que decorreu foi excepcional. Foi desta forma que identifiquei um problema tão absurdo, grosseiro e que tem passado batido por todos nós há pelo menos 2 ou 3 anos, especialmente pelo fato da baixa demanda da linha no domingo.

Com um compromisso certo, procurei o site da URBS para verificar o horário mais adequado de partida do ponto Prefeitura (e que está bem perto de mim) do sentido anti-horário. 15h30 era o horário e com ele em mente me preparei. Morando a 3 minutos a pé do ponto seguinte ao de partida, saí de casa às 15h21 para ter folga e tranquilidade. Ao olhar pela janela do corredor do prédio – que dá de frente para o ponto da Prefeitura, não vi o ônibus parado lá; por outro lado, dei de cara com um monte de brinquedos e cones e algumas pessoas naquele lugar. Imediatamente me lembrei que aos domingos a Prefeitura de Curitiba interdita boa parte da Avenida Cândido de Abreu no Centro Cívico para atividades de lazer. Esse programa da “Prefs” sempre me deixou com a pulga atrás da orelha pelo fato de afetar também o transporte coletivo, tão essencial para a população quanto lazer no meio da rua de uma cidade que mais tem parques dentre todas as outras capitais do país.

Para não ser injusto, em alguns domingos, precisei utilizar o Inter 2 – sentido horário – e descobri que os ônibus Linha Direta, sentido centro – bairro – norte, podiam trafegar pela região com exclusividade sem afetar os pontos de parada na região. No sentido bairro – centro, as linhas que param na estação Centro Cívico utilizam a estação-tubo Prefeitura, logo ali ao lado. Até aí tudo bem, todo mundo tranquilo.

Voltando ao Interbairros…

Quando vi aquilo, rapidamente percebi que eu teria de andar um pouco mais para pegar o 011, que passaria apenas na rua Deputado Mário de Barros, quase esquina com a rua Mateus Leme. Com o passo apurado, fui despreocupado, afinal, o horário para ele passar naquele ponto seria de – pela lógica – 1 minuto após seu horário de tabela na parada – sem parada – Prefeitura. Eis que minha esposa me sinaliza que o ônibus estava passando e ainda estávamos no meio da última quadra antes da rua em que ele passara. Olhei no relógio, marcava 15h26. Cético, acreditei que poderia ser outra tabela que estaria atrasada – que otimista. Ainda em um nível de ceticismo profundo, cheguei a sugerir que ele poderia estar na Linha Turismo.
Corri olhar no Itibus e percebi que, aquele ônibus híbrido tão bonitinho que subia a rua Carlos Pioli era justamente o ônibus que eu deveria pegar às 15h30 – três horas e trinta minutos da tarde. Aquilo foi como uma desilusão amorosa, foi como ver o flerte de tantos anos saindo com outro. Sim, foi um choque de realidade e um banho de pessimismo.

Enfim, havíamos perdido o ônibus, que passou 4 MINUTOS ANTES do horário de partida do ponto PREFEITURA. Mas que ponto? Não é aos domingos que a linha fica sem esse ponto?
Exatamente!

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Observe que a última sincronização do ônibus no momento da captura da imagem foi às 15h24. Neste horário ele já estava passando na altura equivalente ao ponto de parada PREFEITURA sem ao menos fazer alguma parada. Observe o horário no relógio do smartphone: 15h26. Essa foi a hora que já tinha visto ele passar pelos meus olhos.

Pois bem, já que “ganhamos” meia-hora, voltamos para casa para pegar algo que esquecemos. Obrigado pela oportunidade, URBS/Prefeitura de Curitiba.

Voltamos ao ponto e atento ao relógio, o ônibus seguinte chegou às 15h58, 2 minutos antes de seu horário-tabela. Quis saber se por acaso o ponto de parada Prefeitura poderia ter sido suprimido da tabela e por isso, assim que embarquei, grudei os olhos na FCV. Lá claramente constava duas paradas: PUC e PREFEITURA. Horário na Prefeitura: 16h00. Horário em que embarquei no segundo ponto após: 15h58. Consegue perceber? Sim, tem algo bem errado aqui.

Não quis nem cogitar culpar totalmente os operadores pois tenho certeza de que nenhum deles recebeu qualquer instrução de como proceder para cumprir o horário em um ponto que aos domingos não existe na rota. Culpa de quem? Claro, da “Prefs” e seu braço sem mão chamado URBS.

E aí, ficou difícil entender o tamanho do desrespeito aqui? Tenho certeza que isso está mais claro que o céu azul que fez nesse domingo. A Prefeitura de Curitiba quer ser social, descolada, amiguinha do povo mas está pouco se lixando (pra não dizer outra coisa) para o transporte coletivo. Aliás, Curitiba há muito tempo está tocando o dane-se para os usuários do transporte coletivo.

Só que neste caso em específico do Interbairros I, fica evidente que essa situação se desdobra na base da preguiça, do “eu mando” e você se quiser, que aceite assim ou procure outros meios. Poxa, só de pensar que resolver essa situação é tão simples, a minha pálpebra trêmula chega a virar do avesso de raiva. Sim, raiva. Raiva pela falta de consideração ao transporte público, ao cidadão que depende deste importantíssimo meio de locomoção.
Analise comigo: Se o ponto Prefeitura está inacessível por conta do bloqueio total da via, ele não deveria ser alocado para outro espaço próximo? Sim, é óbvio que sim. Se não tem esse ponto, coloque um cone com uma placa escrito “Interbairros I – sentido X” na rua Dep. Mário de Barros, mais ou menos na mesma altura da praça Nossa Senhora de Salete e oriente os operadores a cumprir o horário a partir dali. Ainda está complicado? Então mais simples que isso seria definir o ponto que fica na rua Dep. Mário de Barros, esquina com a rua Mateus Leme como o ponto relativo a seção PREFEITURA. Simples até demais.
“Ah mas tem domingos que não há o bloqueio, como os chuvosos.” Isso não seria problema. É só criar uma “variável”: se tiver tempo bom e a via bloqueada, então o ponto de seção Prefeitura será na rua Dep. Mário de Barros, senão tiver o bloqueio, o ponto de seção será no seu local original. Nossa, que difícil pensar nisso, né URBS? Prefeito Gustavo Fruet, você está aí?

Na mesma foto, o ponto Prefeitura e o ônibus que perdi, só que com o A no prefixo, ao invés do B.

Na mesma foto, o ponto Prefeitura e o ônibus que perdi, só que com o A no prefixo, ao invés do B.

Não posso esquecer de mencionar que o ponto também fica inacessível quando há manifestações que bloqueiam a Cândido de Abreu – coisa natural por aqui, diga-se. Porque a Prefeitura desrespeita e ri da cara do cidadão e não tem a capacidade de pensar em um plano provisório para que a linha continue atendendo com o mínimo de prejuízo aos usuários em situações como essas?

A linha e a volta

Essa tal de linha Interbairros I tem um potencial muito grande. Além de atender bairros que não contam com terminais próximos e/ou com linhas integradas, essa é a única linha regular de Curitiba que possui a famigerada integração temporal1. Veja aí o tamanho do potencial que é completamente ignorado. Você percebe que a linha é ignorada e jogada às traças e só lembrada quando é para passar alguma maquiagem, como ônibus híbridos com uma plotagem bonitinha.
Regularmente a linha tem uma densidade de passageiros baixa, se comparada às outras, é claro. Nos finais de semana essa demanda cai ainda mais. Se não bastasse isso, a Prefeitura de Curitiba ainda corta parte de seu trajeto de maneira grosseira e desrespeitosa. Claro, ao invés de explorar e aproveitar esse potencial da linha para angariar mais clientes, especialmente aos finais de semana, não, é mais fácil suprimir parte do itinerário. Melhor também ficarmos atentos, vai que ao invés de melhorar, eles resolver cortar a linha? Não duvido!

1 O sistema de integração temporal também funciona na estação-tubo Santa Quitéria para atendimento de passageiros oriundos da linha Vila Velha/Buriti que atende a Uniandrade e faz parada na estação-tubo. Também tem o projeto para implantação de algo similar na região da Cruz do Pilarzinho, em substituição à antiga reinvidicação de terminal pelos moradores da região. Existe ainda uma integração temporal entre as linhas Jd. Ipê e Raposo Tavares. Mas no caso específico da linha Interbairros I, é a única linha da qual você pode se beneficiar da integração temporal em qualquer parte de seu trajeto, exceto no sentido inverso.

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Na volta, peguei o mesmo ônibus que havia perdido (BB307). Consegue ver algum passageiro? Com certeza não, já que eu não tirei uma selfie. Cadê os usuários? Acho que cansaram de ser desrespeitados. E não, não era tarde da noite. Horário: 19h13.

Como fazer as coisas certas

Como não temos a cultura de pensar no usuário (leia-se cliente), então faz-se o que der na telha e os usuários que “dêem seus pulos”. Esse tipo de coisa me deixa perplexo, afinal ouvir, entender, compreender e atender ao usuário é a coisa mais trivial do mundo. Se o usuário não recebe nada disso, não adianta ônibus novinho, elétrico, voador ou com comissários de bordo servindo cafezinho. Ele simplesmente vai pular fora, vai comprar seu carro, sua moto, enfrentar prestações de 60, 72x e mofar no trânsito mas não vai precisar depender de um sistema amarrado e que não lhe atende de maneira alguma.

Se, por acaso, tivéssemos a cultura de pensar no usuário, a rota da linha não seria suprimida em 1.3km, mas sim estendida para que todos os pontos de paradas tivessem suas equivalências e atendesse o público em caráter provisório de maneira a afetar minimamente o cliente-usuário. Quer exemplos de como poderia ser? Não tem problema, seguem as sugestões:

010 – sentido horário

A linha azul representa a minha sugestão de rota;
A linha verde é o trecho original;
A linha vermelha é o atual desvio de rota aos domingos;
O marcador azul é o ponto de parada equivalente.

No exemplo de desvio do sentido horário, o ônibus sairia de seu itinerário na rua Carlos Pioli e entraria na rua Mateus Leme. Ele faria parada no ponto equivalente – isto quer dizer: na mesma altura – do seu ponto do Palácio das Araucárias.
(Update: Antes disso, ele pararia um ponto antes que seria equivalente ao da rua Dep. Mario de Barros, quase em frente a ciclovia que dá acesso ao Bosque do Papa).
No semáforo seguinte, entraria na rua Lysimaco Ferreira da Costa para poder acessar a rua Dr. Roberto Barrozo, que o levaria até a Av. Cândido de Abreu. Como ônibus podem circular no trecho, o Interbairros seguiria até a rotatória, onde a partir dali tomaria seu roteiro original e já voltando a atender o ponto de parada da Praça Nossa Senhora de Salete. Simples, rápido e indolor, afinal é domingo.
Perceba que com esta sugestão, nenhum, eu disse nenhum, ponto da linha seria suprimido. Atualmente, a Prefeitura ignora 4 pontos de parada.

011 – sentido anti-horário

A linha azul representa a minha sugestão de rota;
A linha verde é o trecho original;
A linha vermelha é o atual desvio de rota aos domingos;
O marcador azul é o ponto de parada equivalente.

Já para o sentido anti-horário da linha, a volta seria um pouco maior por o trecho contar com ruas sem-saída e com sentido único. De qualquer forma, a linha faria a rotatória e seguiria no sentido contrário da rua Dep. Mário de Barros até a rua Campos Sales (rápida bairro-centro). A rápida levaria a linha até em frente a prefeitura, onde a linha poderia fazer seu ponto de parada equivalente e aguardar o horário, se este fosse o caso. Avançando pela rua Lysimaco Ferreira da Costa, a linha entraria na rua Mateus Leme e faria parada no ponto equivalente à parada do Palácio das Araucárias. Seguindo pela Mateus Leme, a linha entraria na primeira rua à direita, rua Prof. Benedito Nicolau dos Santos, que termina em uma rotatória onde a partir dali a linha entraria em seu itinerário padrão.

Viu que desta forma é possível atender todos os pontos de parada da linha, com perda mínima no atendimento? Pois é, isso se chama respeito, se chama pensar nos usuários.

[Preciso mencionar que as linhas da RMC que passam por esta região já costumam utilizar os pontos de equivalência para afetar minimamente os usuários em situações de bloqueios.]

O poder público pode argumentar: “Mas isso aumenta os custos”.
Sim, aumenta X quilômetros por dia e tantos reais a mais, mas progressivamente aumenta a quantidade de usuários, ao invés de diminuir, o que significa mais recursos financeiros. É gradativo para ambos os lados, só escolher para qual lado você, Prefeitura, quer pender.

Parece radical? Sim, mas não é. Vai ter custos? Sim, mas de baixo impacto e que a longo prazo trará mais benefícios aos usuários e assim, quem sabe, trazer aquela tão sonhada luz no fim do túnel para o quase falido transporte coletivo de Curitiba. Vamos esperar até quando para Curitiba deixar de pensar que tudo tem custos “hoje” e pensar que isso é o investimento de “amanhã”?

Sem contar que uma mudança pequena como essa poderia significar em uma nova cultura de pensamento para nosso antiquado sistema. Uma nova cultura, um novo pensamento poderia ter a capacidade de refletir em todo o transporte público da capital, fazendo com que ele ganhasse cada vez mais ideias novas, modernas e que viabilizasse o respeito aos cidadãos.

A realidade do cenário atual

Não só em Curitiba, mas em todo o país a crise do transporte público está afetando empresas, entidades e os clientes. Tudo isso graças a diversos fatores, especialmente os relacionados ao poder público, que sempre omite e oprime o transporte de massa. De outro lado, quem está com as mãos na massa, não está percebendo que os métodos de lidar com o sistema e com o usuário não pode ser o mesmo de 50 anos atrás. Hoje, a forma de abordar, de lidar com o público é diferente, já vivemos no futuro – pode acreditar. Olhe para o lado, a tecnologia está aí facilitando a vida de todos nós; temos acesso ao Uber, que te disponibiliza um carro para deslocamento em tempo recorde (eu ainda prefiro usar o ônibus, mas… até quando?). Há também os skates do futuro, chamados de hoverboards (de 1 ou 2 rodas) que levam as pessoas para onde elas querem sem precisar ao menos caminhar ou fazer um esforço sequer.
Porque só o transporte coletivo de massa continua engessado? É porque não tem concorrência? Efetivamente o urbano não tem concorrência à altura, mas outros modais podem competir de maneira bem mais eficiente com ele, até mesmo o velho taxi.

Temos uma nova geração pronta para se beneficiar do transporte público, mas eles não tem a mesma cabeça e paciência dos jovens dos últimos 20-30 anos. Ou investe-se para conversar com esse público, para atraí-lo e reatrair o público perdido, ou definitivamente o ônibus estará fadado a virar peça de museu, pelo menos nas terras tupiniquins.

Horários ponto a ponto

Um recurso extremamente básico que é utilizado em inúmeros países é o horário do ponto. Hoje em Curitiba, as linhas possuem apenas horários de tabela em pontos-finais, terminais e algumas estações-tubo. O horário ponto a ponto explicitaria o horário exato em que a linha passaria naquele ponto em específico. Por exemplo, neste meu caso em que embarquei no segundo ponto depois do ponto de partida (15h30), então o horário que ele poderia cumprir ali seria 15h32. Desta simples forma, eu saberia claramente que se o ônibus passou 15h26 pelo ponto, então a culpa seria do motorista que adiantou 6 minutos. Se isso fosse realidade, eu teria plena certeza de que se ele chegasse antes, não (poderia)iria sair até dar seu horário e eu teria condições de planejar com maior exatidão os meus horários e compromissos.

Inviável? Nem um pouco! Hoje temos a internet em nossos bolsos, GPS em todos os ônibus, tela LCD na frente do motorista que pode exibir qualquer informação do mundo ali e os Hibribus ainda contam com um painel eletrônico no interior do veículo (e outro apontando para fora, que atualmente só mostra horário de recolhida), capaz de mostrar todo tipo de informação de utilidade aos passageiros. Impossível mesmo é alguém ter alguma vontade de tornar essas trivialidades em realidade para facilitar a vida do usuário do transporte coletivo.

Fiscalização

Onde anda a fiscalização? Porque ela só serve para punir ao invés de auxiliar? Nesse caso específico da linha Interbairros I, porque não há fiscais controlando, cuidando e orientando a operação? Em tantas outras linhas, que precisam de alguma intervenção – flexível, de preferência – nada acontece e nada se vê.
Há algum tempo, a URBS ressuscitou multas de 2012 que não foram cobradas e queria a todo custo que elas fossem quitadas pelas empresas. As empresas ameaçaram repassar aos trabalhadores. Enquanto isso, a fiscalização para apoiar o transporte estava fazendo o que? Multando ainda mais, óbvio. Essa é a tal da cultura da punição e não da orientação e do apoio. Cada vez mais percebo que ninguém quer estender as mãos para apoiar e ajudar, mas sim para estapear ou apontar a culpa da falha a alguém.

Curitiba, a cidade européia do Brasil

Ah Curitiba, orgulho internacional como cidade sustentável, como cidade modelo, cidade desenvolvida, cidade social, cidade padrão europeu fora da Europa. Pena que tudo isso é apenas perfumaria para o povo aplaudir.
O padrão europeu na mobilidade passa bem longe. Aliás, o prefeito Gustavo Fruet tem feito cerimônia trazendo ônibus elétricos europeus puros para testes, para querer mostrar que Curitiba está pensando no futuro, no meio-ambiente e na qualidade de vida. Claro, ele está certo, afinal Curitiba é movida apenas na base de ônibus bonitinhos, compridos e elétricos enquanto a engrenagem que gira tudo isso é a mesma da década de 1970, com mentalidade do século XX.
Da Europa em nosso transporte, só as fabricantes de chassis. Todo o resto é made in Brazil. O orgulho nacional explode no peito dizendo que Curitiba sempre foi pioneira em inovações. Até acredito que o modal pode ter tido coisas inovadoras para servir de exemplo ao mundo no século XX, mas a mentalidade e infra continua minúscula como no princípio.

Pense comigo, de que adianta bater no peito dizendo que aumentamos nossos ônibus biarticulados de 25 para 28 metros, mas se a operação é engessada, inflexível e punitiva? Cadê as inovações em filosofia, em comportamento? Mas não, melhor inovar na perfumaria de ônibus que assim ilude mais o povo.

Nessas situações, será que existem outras pessoas?

Eu acredito que muitas pessoas se identificam com esse relato no dia-a-dia do nosso transporte deficiente. Tenho certeza que muitas nem se prestam ao trabalho de se manifestar pelo simples fato de saberem que nada irá mudar. Não tiro a razão dessas pessoas, já que no Brasil, mesmo desgraças acontecendo para provar que algo está errado, nada para melhorar acontece. Porém, eu tenho a necessidade de criticar e apontar esses detalhes, para que isso sirva de exemplo para que os cidadãos cobrem seus direitos e não se calem. Acredito que pode ser possível ocorrer uma mudança significativa, mas precisa de pessoas capazes e com vontade em fazer diferente. Nas minhas andanças pelas empresas de ônibus, vejo que existem tantas pessoas cheias de vontades e que na medida do possível fazem diferente, então isso significa que não podemos perder as esperanças. Em algum momento, essas pessoas podem acabar recebendo a responsabilidade certeira de fazer grandes transformações.

Nós, que utilizamos o serviço com regularidade, sabemos o quão ultrapassado ele está. Nem quero entrar no mérito de ônibus anos 2000 operando, que isso chega a ser irrelevante perto da mentalidade cinquentona do sistema. O dia em que o prefeito e sua trupe, os técnicos da URBS e sua diretoria, empresários e especialistas do transporte utilizarem o transporte coletivo de Curitiba por pelo menos uma semana em horários alternados, talvez caiam em si e entendam o que cada um de nós – que opta ou necessita do ônibus – passa no dia-a-dia.

A recorrência dos fatos

Aqui mesmo no site já noticiamos a total incapacidade da Prefeitura de Curitiba em respeitar o cidadão usuário do transporte coletivo. Se lembra quando ela decidiu arbitrariamente alterar o ponto final da linha Detran/Vicente Machado na região do Seminário? Pois então, a prefeitura ignorou os usuários, especialmente pessoas idosas e portadoras de deficiência que por ventura teriam que se deslocar por pelo menos 500 metros em subida para poder ter acesso à linha.
Depois de muito apelo da comunidade – durante 7 longos meses, a “Prefs” deu o braço a torcer e voltou a linha ao seu ponto final original.

Linha Detran/Vicente Machado tem itinerário encurtado (17/10/2015)
Linha Detran/Vicente Machado voltará ao seu itinerário no Seminário (11/05/2016)

 

Eu espero algo com isso?

Será que eu gostaria de receber uma resposta da Prefeitura/URBS? Não, eu não gostaria e não quero resposta por escrito, falado ou por sinal de fumaça. A resposta que eu quero para esse tipo de situação e tantas outras de desrespeito com os clientes é apenas uma: Atitude. Não me interessa posicionamento a respeito de minha opinião, me interessa é ver atitudes, soluções e trabalhos para amenizar o caos em que somos obrigados a viver. Mudar as regras do jogo para tornar o transporte coletivo mais flexível, para respeitar e compreender as necessidades do usuário, para fazê-lo parte importante disso e não secundário que necessita, literalmente, correr atrás dos ônibus para conseguir utilizá-lo.
Chegou a hora de fazer algo concreto. Chegou a hora de pensar no usuário-cliente, de respeitá-lo. É isso que está faltando!

Conclusões em torno da bagunça

Isso tudo é porque somente eu fui afetado? Absolutamente não. Essa situação é só 0,1% da pontinha do Iceberg (aqui leia-se os problemas que nosso transporte sofre). Isso é um desabafo para mostrar que estamos perdendo cada vez mais usuários não por falta de ônibus, falta de manutenção ou qualquer outra interpérie que um sistema como esse pode ter, mas sim porque o poder público não se importa com o bem estar de seus cidadãos, não possui respeito nos atendimentos mais básicos (não vamos abrir espaço aqui para saúde porque senão teríamos que escrever um livro) e não mexe uma palha para tornar o acesso ao transporte mais fácil e rápido. Que esse grito, que essa reclamação se torne base para muitas outras, para que os responsáveis por tudo isso tomem ciência e futuramente passem a aplicar medidas para facilitar a vida de todos os cidadãos curitibanos (e não complicar, como adoram fazer), independente se é no Centro Cívico, no Cabral, na CIC, no Boqueirão, no Batel ou onde for. O respeito e o direito ao ir e vir deve estar ao alcance de todos os que habitam a terra do pinhão.

About The Author

Fundador do Site Ônibus de Curitiba. Admirador de ônibus e modais de transporte desde sempre. Para Diego tudo podia virar ônibus, desde brinquedos, bicicletas, vídeo-games de corrida e até mesmo carros. Quem nunca brincou de fazer linha com algum desses itens? Pois é, Diego sempre fez. Também é fã de tecnologia e gosta de conciliar ambos os gostos, mas nem por isso deixa de encantar-se com modelos clássicos, que não eram dotados de tanta tecnologia assim.

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4 Responses

  1. Rafael Vidal

    Ótimo texto Diego, passou muito bem o sentimento de insatisfação que todo usuário com olhar um pouco mais crítico tem com o sistema.

    Hoje, infelizmente, a principal função da Inter 1 é colocar ônibus bonito e moderno pra desfilar pela região central e reforçar a imagem de transporte de primeiro mundo. A integração temporal a tornou uma linha com ENORME potencial, mas que, por motivos como os que você apontou, é extremamente subutilizada. Dentre os fatores causadores da baixa demanda vale também citar a irregularidade no intervalo entre um ônibus e outro (veículos atrasados nos picos e adiantados nos horários de menor
    movimento) e a própria falta de informações sobre a linha. Muitos potenciais usuários mal tem ideia de seu trajeto, muito menos da opção da integração temporal, integração essa que é extremamente mal
    divulgada, basicamente se resumindo a uma nota em meio as notícias sobre a adoção dos hibribus.

    Quanto a URBS, é mais fácil desativarem a linha, ou trocarem os hibridos por micros, utilizando a baixa demanda como justificativa do que tomar alguma atitude pra incentivar tal demanda. Parecem estar sempre escondidos através de repostas prontas (“não há demanda”, “custo elevado”, etc etc) e se mexem apenas quando a água bate na bunda, como no caso da ampliação dos pontos de recarga do cartão transporte, que só o fizeram por conta da mudança nos micros.

    Quem já andou no XY032 (Hibriplus em teste no Interbairros II) sabe o choque de realidade que é descer do veículo e utilizar um outro qualquer do sistema. E pior que o choque, é saber que não existe perspectiva de termos um padrão sequer próximo por aqui, o que não acontecerá enquanto continuarem preocupando-se apenas com imagens e não entenderam que a rede de transporte deve se adaptar aos usuários e não o contrário.

    Responder
    • Diego Dubiginski

      Ótimas observações, Rafael. Agregou ainda mais conteúdo ao meu relato. Infelizmente é a realidade que estamos enfrentando há pelo menos 12 anos.
      O pior é saber que o transporte coletivo ainda é utilizado – indevidamente – como palanque para político discursar e tentar se eleger. Mesmo com ele aos pedaços como está, continuará servindo de palanque eleitoral. Esse ano vai ser mais um, cheio de promessas e blábláblá pra angariar votos. Vide os Hibribus, que foram comprados unicamente como forma de alimentar o discurso de campanha do então prefeito Luciano Ducci.

      Você fechou o comentário com chave de ouro, não há o que discutir: “não entenderam que a rede de transporte deve se adaptar aos usuários e não o contrário”. Básico do básico e ainda não entendem porquê o sistema está quebrado.

      Responder
  2. Adhel Augusto

    Engraçado ele vim reclamar disso! Tantas coisas acontecendo no Transporte de Curitiba e Região! E vc vem contar esse fato pessoal sem posts novos! Ninguém quer saber o que acontece só apenas com vc, queremos saber sobre noticias pra toda população! Fica meses sem Postar nada, pra isso! Esse Blog está igual a RPCTV! Se não tem tempo apague esse Blog!

    Responder
    • Orem B. Hartuing

      O relato foi muito representativo do que a maioria dos usuários do sistema tem que suportar no dia-a-dia, ele deixa claro isso e diz que é só a ponta do iceberg. Vou mais longe e digo que não é nem a ponta desse iceberg. O sistema de transporte de Curitiba, de 15 anos pra cá, tem ficado extremamente disfuncional e defasado com relação à demanda e às inovações, um projeto absolutamente ultrapassado para uma cidade com mais de um milhão de habitantes, número que atingimos no ano de 1980. Como se não bastasse, é caro, basta ver a relação custo/benefício que alternativas como o Uber não fornece se comparados ao nosso sistema quase cinquentenário.

      Responder

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