O Juiz Maurício Cavallazzi Povoas, da Quinta Vara Cível de Joinville, Santa Catarina, decretou a falência da encarroçada de ônibus Busscar, que já foi uma das maiores fabricantes de ônibus do País. A decisão se baseou, entre outro fatores, no resultado da Assembleia Geral de Credores, que depois de duas sessões interrompidas em 25 de setembro e em 22 de maio, não registrou aprovação unânime do Plano de Recuperação da Busscar. Somente a aprovação de todos os credores, o que não ocorreu, efetivaria o plano de recuperação e poderia livrar a Busscar do risco da falência.

As empresas Tecnofibras e ClimaBuss continuam operando provisoriamente. A Tecnofibras vai ser fiscalizada pelo administrador da falência, enquanto a ClimaBuss continua por mais 30 dias normalmente. A administração da falência vai determinar depois desse prazo em relatório se a empresa possui ou não condições de continuar aberta.

A Busscar pode recorrer da sentença que vale logo depois de sua publicação.

Além do resultado da Assembléia Geral dos Credores que foi considerado uma derrota para a Busscar, o magistrado considerou outros aspectos como o histórico e a importância social da Busscar, além da viabilidade do plano de recuperação da fabricante de carrocerias de ônibus.

A Busscar em seu plano apresentou metas diferentes dos atuais números de produção. De acordo com site da encarroçadora, desde o início do plano de recuperação até o final de julho, foram vendidos 207 ônibus, dos quais 83 entregues.

A Busscar estimava este ano produzir 1,8 mil carrocerias com faturamento de R$ 335, 6 milhões.
Em 2014, a estimativa da Busscar é se tornar superavitária novamente, com lucros reais de R$ 30,2 milhões, já descontados todos os custos de operação e tributários. Para 2016, as projeções são de produção de 4,5 mil ônibus com faturamento de R$ 1,1 bilhão.

Vários credores viram com ceticismo a possibilidade do cumprimento das promessas. Boa parte da produção da Busscar este ano seria destinada para atender ao chamado projeto Guatemala, pelo qual o BNDES financiaria as encarroçadoras em cerca de R$ 400 milhões, sendo aproximadamente R$ 100 milhões para a Busscar, para exportação de ônibus para este país. Ocorre que este projeto ainda não saiu do papel.

Além disso, por conta da entrada em vigor do Proconve P 7 – Sétima Fase do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores, com base nas normas internacionais Euro V, o mercado de ônibus e caminhões se desaqueceu este ano. Em 2011, para aproveitar os veículos com tecnologia Euro 3, com ônibus mais baratos, os empresários decidiram antecipar as renovações de frotas previstas para este ano. Por isso, que 2012 tem sido um ano cujas vendas estão menores. Isso sem contar que a economia brasileira também está desacelerada, com PIB – Produto Interno Bruto que, segundo previsões, não deve ultrapassar de 1,75%.

No entanto, para 2013 e 2014, por conta da volta do crescimento, dos investimentos em mobilidade, inclusive os contemplados pelo PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, e de eventos como a Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016, o mercado de ônibus deve voltar a crescer.

Os desencontros nas negociações trabalhistas e as brigas pelos bloqueios e liberações de patrimônios, ora tidos como disponíveis, ora como indisponíveis, também foram marcos na crise da Busscar.
A chácara Itinga, uma propriedade da família Nielson, que poderia ser usada como garantia de pagamento de parte dos débitos trabalhistas, é um dos exemplos destes bens que estiveram em meio às discussões nos tribunais.

A crise atual da Busscar começou em 2008. A empresa atribui a situação à crise global de 2008, que teve como um dos marcos a falência do banco de investimentos Lehman Brothers, que causou uma restrição mundial no crédito.

A origem dessa crise mundial foi na verdade em 2001, na chamada bolha da internet. Nesta época, depois de uma supervalorização provocada por especulações, as ações das empresas de tecnologia, no Índice Nasdaq, registraram quedas acentuadas.

O então presidente do FED, Federal Reserv, Allan Greenspan, direcionou os investidores para o mercado imobiliário. Com baixas taxas de juros e custos financeiros reduzidos, os investimentos em financiamentos de imóveis cresceram.

Em 2005, para conter a inflação que ameaçava os Estados Unidos, o FED aumentou as taxas de juros. Os imóveis então se valorizaram e as famílias que tinham comprado por este sistema de hipotecas subprimes não tiveram condições de pagar. Os bancos que estavam com estes títulos então sentiram o peso da inadimplência e da desvalorização dos papéis. Por conta disso, instituições que se envolveram neste negócio, as demais instituições relacionadas a estas e todo o mercado, que é extremamente sensível, reduziram investimentos e empréstimos.

A Busscar disse que sentiu este processo. Muitos de seus financiamentos foram reduzidos pela metade, mesmo com as matérias-primas já compradas para atender aos pedidos. Assim, sem recursos, a encarroçadora disse que foi se endividando, refletindo também na capacidade de pagamento de salários.

O mercado, entretanto, vê de outra forma. A crise de 2008 abalou obviamente todo o mercado. Mas por que as outras encarroçadoras passaram pelo momento? A hipótese considerada mais plausível é de que a Busscar na verdade não estava recuperada de outra crise que havia enfrentado, entre 2001 e 2004, à época com apoio do Sindmecânicos (sindicato dos trabalhadores) e do BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Na ocasião, a Busscar disse ter sido prejudicada com a política cambial. Em 1999, houve uma relevante desvalorização do real.

A Busscar disse que comprou peças, matérias e equipamentos em dólar com preço baixo, na época do real valorizado, mas na hora de vender os ônibus em real, quando a moeda brasileira teve a cotação reduzida, os veículos foram comercializados também com preços internacionais mais baixos ainda.

Agora, por que a Busscar foi tão suscetível às duas crises: a do câmbio em 1999 e a do crédito em 2008? Erros administrativos são a hipótese mais forte. Mas há também alguns indícios que apareceram durante o caso. Os nomes de diretores, como Cláudio Nielson e Rosita Nielson, figuraram como credores na lista dos débitos trabalhistas, com cerca de R$ 1,5 milhão cada a receber da própria empresa. O interessante é que os nomes não estavam na parte destinada a sócios e investidores.

História que não pode ser apagada
Apesar da situação recente envolvendo a Busscar, a história da empresa é algo que não deve ser anulado. Com pioneirismo e inovações, a Nielson – Busscar contribuiu não só para o desenvolvimento da indústria de ônibus e o setor de transportes, mas fez parte do crescimento de toda a nação. Afinal, os ônibus estão inseridos no dia a dia das pessoas, ajudam as cidades a crescerem, levam as pessoas para onde está o emprego e a renda e permitem o acesso aos serviços essenciais, como saúde, educação, lazer, etc. E neste processo, sempre estiveram presentes ônibus feitos pela Busscar, que até 1990 se chamava Nielson.

A companhia foi fundada em 17 de setembro de 1946, pelos irmãos Eugênio Nielson e Augusto Bruno Nielson. Inicialmente, os negócios eram destinados para a fabricação de esquadrias, balcões e móveis de madeira. A madeira nesta época também era a matéria – prima das carrocerias de ônibus, com algumas exceções.
No ano seguinte, em 1947, eles reformaram uma jardineira, um ônibus rústico de madeira. Em 1949 foi a vez de construírem uma carroceria de jardineira sobre um chassi de caminhão Chevrolet Gigante. Outra característica da época é que os ônibus não tinham chassis próprios. Eram somente caminhões que recebiam estruturas, quase artesanais, para transportar passageiros..

Com a entrada em 1956 de Haroldo Nielson no negócio, filho mais velho de Augusto Nielson, a empresa toma novos rumos.
Era época de crescimento econômico, de urbanização e a demanda por ônibus crescia. As cidades se tronavam mais populosas e os deslocamentos necessários. A Nielson soube aproveitar o momento. A empresa já tinha entrado para a época das carrocerias metálicas.

A Nielson também lançava produtos que seriam destaque e até referenciais para outras fabricantes, como ocorreu com o Diplomata, em 1961. O modelo, variando de acordo com o tempo, foi comercializado até o início dos anos de 1990.

A última série de Diplomatas – Diplomota 310, Diplomata 330, Diplomata 350 e Diplomata 380 (os números são de acordo com a altura dos ônibus) -, chegou a liderar meses de vendas.

Desde o primeiro Diplomata até o os últimos, os itens de conforto e boa visibilidade chamavam a atenção para os padrões de cada época, até mesmo nas versões mais simples.

Foi um Diplomata, em 1979, para a Auto Viação Catarinense, a primeira carroceria de ônibus brasileira com 13,2 metros. O modelo também se destacou por ter versão articulada rodoviária. Em 1984, o Diplomata 380, com 3,91 metros de altura, era lançado e impressionava por suas dimensões.

No ano de 1987, a Nielson volta a investir em modelos de ônibus urbanos. E lança o Urbanus, que até hoje, passou por várias versões.

Em 1993, apresentou uma solução para o mercado pela HVR Equipamentos Industriais, uma das empresas do grupo, pela qual a carroceria era montada em chassi próprio da Busscar.

A mudança de nome de Nielson para Busscar foi uma estratégia de negócios e ocorreu entre os anos de 1989 e 1990. Além do novo nome, entrava uma nova família de produtos: a El Buss e Jum Buss, que substituíram os Diplomatas. Com o passar dos anos, novos modelos surgiram, como o Vissta Buss, Panorâmico DD e Micruss, alem de Elegance e Miduss, mais recentemente.

A Busscar faz parte direta ou indiretamente da vida de muitos brasileiros. Quem anda constantemente de ônibus, em alguma vez na vida esteve num veículo encarroçado pela empresa.

Fonte: Blog Ponto de Ônibus/Adamo Bazani

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About The Author

Wagner é motorista de ônibus da Empresa Expresso Princesa dos Campos e admirador de ônibus e transporte público desde pequeno. Trabalhou em empresas de Curitiba, como a Cristo Rei e Santo Antônio. Também foi o criador do blog Ivanbuss, onde publicava suas fotos e de amigos. Em 2012 juntou-se ao Ônibus de Curitiba e trouxe sua experiência para somar ao time do site.

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One Response

  1. Matheus Augusto

    É triste o negócio, isso que é ruim, agora se foi uma das melhores fabricantes que todos nós achamos o melhor e gostei muito do ultimo paragrafo do texto: " em alguma vez na vida esteve num veículo encarroçado pela empresa"…

    Responder

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